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Fátima Freire – sensibilizando corpos para a educação

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Se o sobrenome lhe soou familiar, não é por acaso. Fátima é filha do grande educador Paulo Freire. Assim como o pai e a mãe, esta também educadora, ela se apaixonou pela educação e dedicou sua vida a estudar o assunto.

Fátima cursou Filosofia na Unidade de Coimbra, Línguas Romanas na Faculdade de Letras da Universidade de Varsóvia, Psicopedagogia no Instituto Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, e Pedagogia na PUC-SP. É autora do livro “Quem Educa Marca o Corpo do Outro”, obra de extrema relevância para o contexto educacional. Além de ministrar palestras sobre educação no Canadá, na Irlanda, na África do Sul e na Espanha. Em 2005, a educadora trouxe essa bagagem para contribuir com o projeto da Juan Uribe Ensino Afetivo, desafiando os educadores a refletirem sobre o fazer pedagógico. Nesta conversa, Fátima fala dessa relação com a escola e de seu olhar sobre educação. Confira!

Qual é o seu lugar na Juan Uribe Ensino Afetivo?
Meu lugar aqui é o de formar os coordenadores, minha mão de formadora cai diretamente no corpo dos coordenadores e indiretamente na dos educadores. Faço atendimentos individuais uma vez por semana com os três coordenadores e quinzenalmente, às sextas-feiras, em reunião de grupo pedagógico (educadores, coordenadores e assistente pedagógica). Nesses encontros, nós utilizamos instrumentos pedagógicos interessantes: a pauta aberta e a pauta fechada, nas quais trabalhamos constantemente o binômio todo/parte (conceito em que se trabalha por par de ideias). Por meio dele, questionamos quais são as problemáticas pedagógicas gerais que abrangem todo mundo e quais são as dificuldades mais pontuais que podemos ter e que podem interferir nesse processo. Nós também desenvolvemos o eixo profissional e o eixo pessoa. No eixo profissional, são trabalhados os aspectos exigidos para o profissional atuar na metodologia específica (language acquisition). No eixo pessoa, são vistos aspectos da caminhada individual de cada um, para o profissional aperfeiçoar a sua forma de estar em sala de aula, pensar o que ele pode agregar à prática a partir de suas vivências próprias e o que ele pode melhorar em si mesmo para dar aula. Também são trabalhadas as dificuldades e facilidades do educador enquanto indivíduo, como ele está no mundo e que tipo de educador ele é.

“E quem fala de corpo fala de história de vida. Das marcas que cada um traz consigo. Por essa razão, sempre dei muita importância ao resgate da história de vida do educador no seu processo de formação.” -  Quem Educa Marca o Corpo do Outro – (Editora Cortez – 2007), Fátima Freire 

•Qual a importância de trazer à tona o “eu” do educador para a sala de aula?
É importante que a criança veja o educador não só como profissional, mas como uma pessoa. No entanto, o que mais se escuta nas escolas, em geral, é: “meu ser profissional e o meu ser pessoal são coisas distintas”. Então, faço um questionamento: como eu educo se eu não falo de mim, se não falo da minha raiva, da minha alegria e dos meus sentimentos? Se fugimos das emoções, perdemos a dimensão de que somos uma pessoa inteira. Para o educador vivenciar o afeto, ele precisa estar inteiro, o que demanda suporte psicológico e emocional, e é o que fazemos aqui com as formações, desenvolvendo com cada um dos educadores um binômio, como: empatia/parceria, conflito/confronto, subestimar/superar. Todo esse processo de formação aqui dentro não é fácil, mas é altamente fascinante. E, assim, pelo viés da relação educador-educando, construímos o vínculo pedagógico-afetivo com as crianças, e é por isso que elas aprendem. É uma coisa linda como elas vivenciam a língua inglesa. Os estudantes realmente vivem o idioma, porque estão fazendo uso da língua para se comunicar e não memorizando ou decorando um conhecimento.

“O ato de perguntar transformou-se na minha prática, num instrumento metodológico de trabalho que me possibilita criar e, ao mesmo tempo, entrelaçar os fios de tecidos na minha prática pedagógica.”  - Quem Educa Marca o Corpo do Outro – (Editora Cortez – 2007), Fátima Freire 

•Por que precisamos falar de afeto no contexto educacional?
Se repararmos bem, nós somos constantemente atravessados por afetos: a gente ama, a gente odeia, a gente tem raiva, a gente tem alegria, a gente tem tristeza. Todos esses “sentires” fazem parte do eixo do ser humano e isso pode ser um complicador ou um facilitador, depende do enfoque que a instituição dá ao processo de formação do educador.

• Fátima, por fim, o que é educar para você?
Ao longo da minha trajetória, eu venho descobrindo várias definições, mas tem uma que eu particularmente gosto muito. Para mim, “educar é se relacionar”. Outra definição de que eu gosto é a de que “educar é justamente possibilitar que o outro possa ressignificar todas as marcas da caminhada dele até então”. Eu entendo que educar tem a ver com ressignificação, porque educar é possibilitar que o outro aprenda e crie seus próprios significados. Afinal, o ato de educar vai além do ensino-aprendizagem, educar é possibilitar que tu sejas mais tu no mundo!

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