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Entrevista sobre auto estima – Revista Pueri Domus

Juan Uribe em entrevista no Pueri Domus

Como vai sua auto-estima? Ricardo, desliga a TV que é hora de estudar! João, você está péssimo em Matemática! Se você fizer sua lição, ganhará um presente bem legal! AH! Seu desenho está horrível!

Quem nunca falou frases desse gênero com seus filhos? Parabéns para quem disse: Eu nunca falei.

Mas, na maioria das vezes, estas frases são comuns no nosso cotidiano. As palavras, muitas vezes acabam ferindo e marcando ao longo da vida, podendo causar futuras frustrações e mexendo com a auto-estima das pessoas.

Para conversar sobre este assunto, entrevistamos Juan Uribe, um dos Presidentes do Conselho Brasileiro de Auto-Estima.

Qual é a melhor definição de auto-estima?

R: A auto-estima tem várias definições. Alguns dizem que é a mola propulsora na vida de uma criança, outras afirmam que é o seu próprio auto-conceito, ou seja, como você se aceita. Eu diria que a auto-estima é sentir-se amado e bem consigo mesmo. Na criança, a auto-estima depende muito da relação com os pais. Quando falamos em auto-estima devemos lembrar que existe todo um processo longo a ser trabalhado desde a nossa infância, pois não conquistamos auto-estima do dia para noite.

Como seria esse processo?

R: Imagine a auto-estima como uma pirâmide onde na base temos a Segurança, mais acima a Identidade, posteriormente as Inter-relações, mais adiante Metas e, ao topo, a Competência Pessoal. Todos estes níveis devem ser trabalhados desde criança no ser humano.

Quando me refiro a Segurança, me refiro ao amor incondicional das pessoas significativas na vida da criança. Ela tem que saber que ela é amada, independente do que esteja fazendo e, principalmente, que seus sentimentos são reconhecidos e valorizados. Atenção totalmente focada na conversa, olhando nos olhos e o toque afetivo mostram a criança que ela é importante e que nós nos preocupamos com ela. Você pode dizer a uma criança, muitas vezes, que a ama, mas é a maneira pela qual convive com ela, dia após dia, que prova esse amor.

Na Identidade, devemos sempre trabalhar com o verbo Estar e jamais o Ser. Desenvolver, nas crianças, a capacidade para que elas possam ter auto-percepção, reconhecendo suas qualidades e potencialidades. A formação da auto-imagem da criança depende muito da imagem que ela reflete dos pais. Em relação à escola, o professor tem que ter jogo de cintura para dirigir comportamentos sem colocar os alunos em situações delicadas e proporcionar tarefas desafiadoras, nas quais as crianças podem obter sucesso. Não deve rotular nem em situações positivas ou negativas; o que deve ser enfocado é sempre o comportamento da criança. As crianças valorizam a si mesmas na medida em que foram valorizadas.

Quando pensamos em Inter-relações, devemos mostrar que a criança pertence a família e trabalhar sentimentos de isolamento que podem aparecer. Nos Objetivos e Metas, pais e professores devem estar sempre estimulando os objetivos da criança, sem restrições, e procurando orientá-la, da melhor maneira possível, para a concretização dessas metas. E, por fim, a Competência Pessoal, essa é a parte de auto-avaliação, quando chegamos às conclusões que ajudam a fortalecer a Identidade e preparar metas futuras.

Como a auto-estima pode ser desenvolvida?

R: Através da interação que os pais têm com as crianças. Devem sempre estar partilhando momentos. Muitos acham que dispor de um tempo para o filho é essencial. De fato, é muito importante este ato, mais importante que isto é a qualidade do tempo disposto. Também é desenvolvida através da maneira que os pais falam com as crianças. Um exemplo é quando falamos para nossos filhos: “você é muito ruim em Matemática” ou “você é muito bagunceiro”, quando isso é dito continuamente, as crianças acabam acreditando que de fato é verídico. Os julgamentos negativos transformam você num espelho negativo para seus filhos e destroem o auto-respeito e a segurança, diminuindo, envergonhando e castigando. O que os pais podem fazer é focar no comportamento, dizendo da seguinte maneira “você não foi bem em matemática” ou “seu quarto hoje está muito bagunçado”, sem fazer julgamentos. Assim a criança percebe que este é um estado transitório e não uma característica inerente sua.

“Mostre-me e olharei
diga-me e escutarei
Envolva-me e aprenderei”
(Confuncio – Pensador Chinês)

O que é auto-estima elevada e baixa auto-estima?

R: A pessoa que tem uma auto-estima elevada é aquela que se aceita incondicionalmente, procura sempre melhorar, trabalha bem em grupo, assume responsabilidades por sua vida e tolera frustrações. A pessoa com baixa auto-estima é geralmente indecisa, não gosta de correr riscos, não possui iniciativas, acredita na sorte e costuma culpar os outros por não atingir seus objetivos.

Pessoas que confundem auto-estima com pensamento positivo podem sofrer algum tipo de frustração?

R: Sim, a auto-estima é um termo muito utilizado e não é entendida de forma ampla. Muitas pessoas acabam mesmo confundindo auto-estima com pensamento positivo ou amor próprio. Pensamento positivo ou otimismo são definidos como focalizar na parte positiva de uma situação particular ou esperar o melhor. Já a auto-estima é o julgamento geral da pessoa em relação a si próprio, que inclui o alto valor e a alta competência. Resumindo, auto-estima envolve o pensamento sobre si mesmo, enquanto pensamento positivo refere-se à uma situação particular, ou hábito particular. Auto-estima leva ao otimismo e se sentir bem é uma das conseqüências.

Com o mercado atual muito competitivo, as empresas procuram profissionais que possuam autoconfiança, ou seja, com auto-estima elevada. Se desde criança essa pessoa não dispõe de auto-estima elevada, é possível reverter o quadro na fase adulta?

R: É mais fácil mudar a auto-estima de uma criança do que a de um adulto, pois a criança está em formação e não está com os valores enraizados como um adulto. Devido a este fator, é bem mais fácil mudar uma convicção que está em desenvolvimento do que uma que está cristalizada. Mas, se a pessoa estiver disposta e assumir as responsabilidades pela mudança, com certeza, há como mudar. A pessoa que não dispõe de auto-estima elevada, ao participar de uma dinâmica de grupo, tem dificuldades em se integrar, aceitar sugestões e trabalhar em grupo, enquanto que a pessoa com auto-estima mais elevada é mais criativa e sua integração oco

Qual seria o método indicado para cuidar de pessoas que possuem baixa auto-estima?

R:Primeiramente, criar uma auto-imagem positiva,traba-lhando a conscientização da pessoa. Após a conscientização, é trabalhada a auto- aceitação pelo o que ela é. Em seguida, deve-se responsabilizar-se pela mudança da própria vida, conseguindo assim, a auto-estima. No começo, se reconhece, depois aceita-se incondicionalmente pela sua identidade e, em seguida, conquistam-se metas. Trabalhando para a realização dessas metas e percebendo que possui competência para mudar sua vida, é possível atingir o sucesso e obter, assim, a renovação.

A motivação é uma ferramenta da auto- estima?

R: Esta relação entre a auto-estima e a motivação é muito interessante, pois, no começo, falamos que ela é a mola que impulsiona uma pessoa para ter sucesso na vida. Auto-estima traz motivação interna. Muitas vezes, pessoas que não têm auto-estima elevada possuem alguma motivação externa para conseguir algo, por isso que, desde pequeno, é importante estar trabalhando essa motivação intrínseca.

Muitas pessoas procuram ajuda para resolver problemas com auto-estima. Como é feito o diagnóstico dessas pessoas? Como seria o tratamento?

R: A pessoa que tem auto-estima baixa, na verdade, sabe que a tem. Tem muito a ver com a história de vida de cada pessoa, da relação que dispõe com os pais e pessoas significativas em sua vida. Existem diferentes áreas na auto-estima, que através do diagnóstico, podem ser avaliadas. Uma pessoa pode ter auto-estima elevada no trabalho mas, não possuir essa mesma auto-estima no esporte. É complexo. Você pode identificar em que área a pessoa dispõe de auto-estima mais elevada e mais baixa. Quanto mais cedo receber reflexos estimulantes e quanto mais reflexos positivos tiver, menos tempo será necessário para modificar o desagrado que sente por si mesma. O tratamento pode ser feito com terapia se a atitude estiver muito cristalizada. Se não, as experiências de vida bastam.

“Se trabalharmos somente a Identidade na auto-estima, vamos acabar nos tornando egocêntricos”.

Os livros relacionados ao tema ajudam a elevar a auto-estima?

R: Existem diferenças entre livros de auto-ajuda e livros que trabalham a auto-estima. Os livros são interes-santes para os adultos, pois dão conceitos e assim, conhecendo um pouco de como a auto-estima é formada e quais são os fatores que a formam, procuram auto reavaliar-se e pensar em fatores que possam estar mudando. Para crianças, as metáforas, as histórias, ajudam muito nessa elevação da auto-estima.

Livros indicados

  • A Auto-estima do seu filho
  • Dorothy CorKille Briggs
  • Inteligência Emocional e a arte de educar nossos filhos
  • John Gottman

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